Maternidade transformadora

Categorias: Prosa de mãe, Reflexões

A maternidade me transformou de tantas maneiras, uma das quais, a forma de ver o outro, em especial, outras mães. Novas mães como eu, ou mães de longa data, mulheres que eu conheci meninas e vi tornarem-se mães, antes, depois ou junto comigo, ou aquelas em cujas vidas eu entrei depois de seus filhos, não importa! Todas elas, para todas elas, eu olho agora de um jeito diferente.

É como se todas tivessem um pouco de mim, um pouco do mesmo que há em mim. Talvez por isso a maternidade tenha me aproximado de tantas pessoas, não só pelo que agora temos em comum, mas pelo que eu gosto de observar nelas, pelo que eu passei a admirar, pelo que me inspiram. Gosto de lembrar das minhas amigas como elas eram antes e como mudaram, me faz sentir normal, e até mesmo aquelas para quem a vida seguiu sem grandes alterações, eu sei, mesmo sem saber, que lá dentro, elas passaram pela mesma coisa avassaladora que eu, de um jeito ou de outro, com mais ou menos intensidade, elas também mudaram.

A experiência de ter um filho, e eu não estou falando do parto, é uma experiência devastadora porque nos revela o amor em sua amplitude máxima, desde a mais simples alegria que ele proporciona ao mais dolorido sofrimento. A gente muda por dentro, a gente se comove com o que não percebia, mas também endurece, cresce, se fortalece. É o instinto que às vezes fala por nós, e nem sempre são sentimentos positivos que se revelam. Não quero dizer que agora eu olhe para todas as mães com compaixão, mas com cumplicidade e curiosidade sempre.

Imagem: Estúdio Art Causa

Imagem: Estúdio Art Causa

Sabe aquela coisa de super-herói, que tem super-poderes mas nem sempre sabe bem como usá-los, eu me sinto assim, e vejo isso em outras, reconheço nelas o mesmo mistério, a mesma força dos heróis, mas ao mesmo tempo eles são conflitados, perdidos, escondem um passado, e nós também, um pouco, não? Se hoje não posso ver uma cena de violência com uma criança sem sentir dor, as cenas de amor já não me fazem chorar como antes. Se já não critico a mãe desconhecida com o filho esperneando no chão do supermercado, muitas vezes, sim, eu julgo a vizinha, a amiga ou a prima que age dessa ou daquela maneira diferente de mim ou do que eu acho certo. Porque a maternidade me fez mais humana, mas me fez mais egoísta, me fez mais generosa, e mais medrosa também. E como dizer que ainda sim me sinto mais forte? Mas é a mais pura verdade. Porque o instinto é isso, é o melhor e o pior.

Sejamos sinceras, em nome do conhecimento de causa e da própria experiência nós muitas vezes julgamos umas as outras sim, ainda que o filtro da etiqueta não nos deixe verbalizar os pensamentos ou que em razão da tal compaixão e cumplicidade que também sentimos umas pelas outras, demos o benefício da dúvida. E sim, como tudo nessa vida de mãe, ou de geminiana, é conflito, aos poucos eu vou aprendendo a ser mais condescendente também. Outras vezes temos inveja, das mães mais pacientes, dos filhos mais calmos, ou ainda inveja das que ainda não são mães…. não essas eu não invejo, mas sinto, admito,  um certo despeito. Eu não quero mais aquela liberdade, mas o fato de outra pessoa poder desfrutá-la na minha frente e eu não, às vezes incomoda. Por outro lado eu sou capaz de sentir a dor de alguém que nem conheço, de perder o sono por um exame que um bebê lá no sul fará amanhã, de sentir a angústia de uma amiga que não consegue amamentar. Disseram que ser mãe é ter o coração batendo fora do corpo, eu acho que os nossos todos batem um pouco juntos, no peito umas das outras.

Não há nada que eu goste mais do que ser mãe e se isso me tornou a pessoa que eu sou hoje, então não há mais ninguém que eu queira ser, mas que de vez em quando bate uma saudade de mim mesma, de quem eu era, mesmo sem lembrar direito o que isso queria dizer.

São 2 da manhã, e eu devia estar dormindo ao invés de divagando, porque este post é isso, um devaneio que foi saindo pro papel e virou esse texto, agora, sem planejar, sem pensar. Tá aí, queria dividir….

 

 

 

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