Sobre as polêmicas em torno das vias de parto e o mundo materno virtual

Categorias: Prosa de mãe, Reflexões

Estou de férias, e embora tenha feito uma espécie de voto de férias produtivas, onde eu pretendia aproveitar o tempo para escrever como nunca e dar um gás no blog, esta semana eu sucumbi, me entreguei ao sol, à piscina, ao sofá, à cama e à pracinha com Pedro…. afinal daqui a 10 dias recomeça minha dupla jornada e mais do que me dedicar aos meus projetos pessoais, eu também preciso descansar, 2015 será pedreira!

Mas então, eis que o governo divulga uma notícia sobre novas regras com o objetivo de reduzir o número de cesáreas na rede particular (leia aqui)…. grupos de mães no Facebook pegando fogo em 3, 2,1….Meus dedos coçam, preciso escrever…

Antes de mais nada acho que toda e qualquer medida que garanta mais transparência na relação médico/paciente no que diz respeito ao parto, é válida! Se todas as medidas propostas terão eficácia, eu não sei, mas já é um começo, e uma vitória para todos os lados desta guerra…. uma vitória das que defendem o direito à escolha, seja ela qual for. Porque o que vemos hoje é que exercer esse direito está cada dia mais difícil, e eu não estou falando daquelas que deliberadamente optam pelo parto cirúrgico, embora seja difícil para mim entender a sua motivação (não cabe a mim entender apenas respeitar, certo?!), e nem tampouco daquelas que encontraram no parto humanizado o meio para darem voz às suas vontades na hora de parir. Eu particularmente não simpatizo com radicalismos, pessoalmente sou contra extremos de qualquer parte. Mas eu falo da imensa maioria de mulheres,  das que nunca pensaram muito a respeito até estar diante do GO na primeira consulta pré-natal, das que não tinham uma escolha feita, ou pensavam em “se tudo der certo, quero normal!”, ou que mesmo convictas dessa escolha foram levadas a acreditar que não era a melhor opção por esse ou aquele motivo clínico…. Entendam, eu fiz uma cesárea! Não tenho nenhuma intenção de julgar qualquer mãe pela via de parto escolhida, eu tenho consciência de que a cirurgia tem suas indicações e em muitos casos salva vidas, mas em cada caso há diferentes níveis de risco para uma  e outra opção, cabe à mulher, devidamente orientada por seu médico, escolher quais riscos quer correr, até onde deseja ir para seguir sua opção. Eu fiz a minha escolha em meio ao trabalho de parto, embora tenha me sentido frustrada, nunca me senti induzida e nem tampouco arrependida, mas conheço muitas mulheres que se sentiram manipuladas e até enganadas, algumas se deixaram enganar porque não tinham mesmo muita certeza do que queriam ou não se importava tanto, outras só se perceberam enganadas mais tarde, há as que simplesmente tiveram medo de questionar ou se viram sem opção e ainda as que convivem com a dúvida, com o “e se”…. Algumas se incomodam e outras não, mas o fato é que o processo não foi transparente para todas elas. Eu fiz a minha escolha com o apoio de alguém em quem eu tenho absoluta confiança, e não foi preciso ter acesso às suas estatísticas de partos anteriores para me sentir assim, sinceramente, não sei se teria feito diferença.

Mais do que falar sobre a questão em si, eu queria falar sobre como ela é abordada e discutida nas redes sociais e sobre os valores positivos e negativos desta discussão. Não sei vocês, mas eu nunca tinha presenciado uma discussão sobre partos, nem mesmo na pracinha, ou em família ainda que com várias grávidas presentes, nunca, até entrar em um grupo de mães em uma rede social! Sim, porque na vida real as pessoas tem filtro, a vizinha te diz no elevador que vai fazer uma cesárea porque não quer sentir dor ou que vai parir em casa sem anestesia e você pensa mil coisas em um segundo, mas faz cara de paisagem fala qualquer amenidade e segue em frente, mas na internet não, na internet a etiqueta ficou pra trás. Protegidas atrás das telas de seus computadores, celulares e afins, as pessoas esquecem a diplomacia, não todas, mas muitas esquecem, e mesmo as que não o fazem, dizem coisas e expõe opiniões como não fazem em outro lugar. Por outro lado, é nesse caldeirão em ebulição que questões como essa são levantadas e ganham vulto, graças a este UFC materno, milhares de mulheres aprenderam mais sobre as vias de parto, aprenderam que existem diferentes opções, e se nem sempre a informação tem qualidade ou é confiável, pelo menos abriu caminhos para a busca de mais conhecimento, muita gente ouviu falar pela primeira vez em parto humanizado, doula, VBAC, episiotomia, placenta prévia, mecônio, etc através destas discussões acaloradas e não de seus médicos… Esse é o saldo positivo de toda essa guerra virtual, estamos chamando atenção para um questão que é de todas nós, e todas temos a ganhar, de “xiitas” a “menasmains”, embora eu não acredite em nenhum dos dois rótulos!

Somos mães e somos humanas, não somos preto ou branco, somos cinza! Não entramos para uma seita, não fizemos votos nem juramentos, cada uma segue seus instintos e escolhe suas batalhas, podemos concordar sobre educação e discordar sobre alimentação. Se eu consigo conviver e respeitar amigas que por vezes são mães tão diferentes de mim, porque julgar justo aquelas que não conheço, que não tenho idéia de em que contexto fizeram esta ou aquela escolha, e ainda que eu julgue (porque isso acontece e eu já falei sobre isso aqui), use o filtro, veio na ponta da língua uma crítica mais ácida, respire, pule o post…. Para defender sua opinião não é preciso ofender a contrária, não estamos em um debate de campanha política.

Tenho amigas que pariram em casa, outras que desistiram de amamentar aos 2 meses, que pararam de trabalhar, que deixam chorar, que dão danoninho aos filhos, que deixam os filhos com a babá e vão viajar, que montaram quartos montessorianos, que deram chupeta, que carregam os rebentos no sling para onde vão, que servem comida orgânica, que amamentam até os 3…..eu posso ter feito quaisquer dessas escolhas e outras mais e nenhuma delas por si só define que mãe sou eu!

 

 

 

 

 

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