Porquê eu virei a furona da turma depois de ter filhos (uma carta às minhas amigas)

Categorias: Prosa de mãe, Reflexões

Eu sei que você está chateada comigo porque há anos eu não vou às suas comemorações, eu posso até ter faltado ao seu casamento, e certamente não fui ao happy hour no seu último aniversário. Talvez a essa altura você nem me convide mais, mas acredite, não é falta de vontade, na verdade eu até sonho com ocasiões sociais onde eu possa bater um papo descontraído com você, sem crianças interrompendo, quem sabe dançar como nos velhos tempos, rir e cantar altos as músicas que fizeram nossa história.

Você que me conhece de longa data sabe que eu não fui sempre assim, eu costumava sair do trabalho tarde da noite e ainda assim passar no bar onde você comemorava seu aniversário, só para te dar parabéns. Eu também encarava duas ou três festas no mesmo dia, mesmo que fosse só uma passadinha, mas eu não podia deixar de ir. Convites em cima da hora não eram problema, e se eu não conhecia ninguém além de você, também não. Mas aí eu casei, mudei de bairro, tive filho, e mudei de pele. E hoje nada mais é simples como antes, o marido é caseiro e pouco afeito à badalações, pra ser sincera pra nos tirar de casa eu preciso de ânimo em dobro, por mim e por ele, e nos últimos tempos não tenho tido nem por mim, e sabe o que mais, a gente perde o ritmo, perde a prática, desacostuma.

LEIA AQUI SOBRE O MEU TEMPO DE CURA – TEMPO PARA ME REENCONTRAR APÓS A MATERNIDADE

A minha vida social não existe, se resume a festinhas infantis (e mesmo assim é comum faltar também) e saídas com alguns poucos amigos cujos filhos tem a idade dos meus, são almoços rápidos em restaurantes com área kids ou encontros em casa mesmo, onde a cria brinca solta. E para quem não tem vida social, uma simples festinha num sábado à noite é tão, mas tão fora da rotina, que precisa planejamento, e esse, você me conhece bem, nunca foi meu forte. Eu era do tipo que ia da praia pro bar, e dali pra onde a galera chamasse, lembra? nunca era eu a inventar os programas. Mas agora eu preciso saber algumas coisas com antecedência, se o programa comporta ou não crianças, se não, tenho que arrumar quem fique com elas, no caso com ele, porque Laura mama no peito ainda (não ela não toma mamadeira!). De qualquer forma minha única opção é a vovó Regina, especialmente se for à noite. Digamos que eu consiga o vale-night, ótimo, então preciso garimpar no meu armário algo adequado para vestir, e eu juro, não é como o drama que fazíamos na época da faculdade, é real, eu NÃO TENHO ROUPA, eu não tenho vida social lembra? Meu guarda roupa se resume a roupa de trabalhar, calça jeans, camiseta e sapatilha.

Mas afinal é o seu casamento e você me convidou com meses de antecedência, é claro que eu providenciei vestido, marquei na agenda, preparei o marido psicologicamente, mas aí o casamento é em petrópolis, e eu tô dura porque bateu com o mês da pré matricula da escola, não dá pra pegar qualquer hotel de beira de estrada, eu tenho crianças lembra? Mas é seu casamento, quero muito ir, mesmo sabendo que eu vou chegar na sua festa exausta após a maratona que será a viagem (a começar pela bagagem que mais parece uma mudança), não vou conseguir  manter um diálogo por mais de 20 minutos sem ter que correr atrás de uma criança, e nem perto da pista vou chegar porque eu não aguento mais os saltos, desacostumei! Ok! Podemos dar sorte e ser aquele dia em que a criança está ótima, faz amizade com o filho da sua amiga, brinca a festa toda até dormir num puff do lounge, mas isso é raro, porque a verdade é que eles também não estão acostumados, estranham ambientes barulhentos, são habituados a dormir cedo…. pois é, quem me mandou não ter vida social, não é mesmo?! E mais, agora são dois, preciso que os dois estejam num dia, ou melhor, numa noite boa…….seria quase como ganhar na loto!

Então voltamos ao seu aniversário, aquele que você marcou num restaurante, onde dá pra levar crianças, até seus sobrinhos estarão lá…. mas é lá na barra, e eu não dirijo lembra? Tudo bem que quando solteira eu pegava um táxi ou até ônibus à noite numa boa, e sozinha! Só que agora eu sou mãe, e eu tenho medo, eu tenho medo da violência, tenho medo de cruzar a cidade tarde da noite com duas crianças no carro ainda que meu marido esteja junto. Até pensamos em ir de táxi, afinal além da lei seca nós somos responsáveis e conscientes agora, mas é bem difícil achar um táxi que caiba o carrinho na mala, quase todos tem kit gás, então pensamos no uber (e essa opção é bem recente), tem o lance das cadeirinhas, afinal não é aqui do lado….. e eu continuo com medo da violência…. sabe o que é? eu quase não saio mais na rua à noite, desacostumei!

Já que é sua festa e não nos vemos há tanto tempo, eu prometo que vou tentar ir, vou fazer todo esse esforço, mesmo que juntas mesmo a gente não acabe ficando quase nada….. só que eu posso furar, eu posso furar porque não tenho quem fique com as crianças, ou porque a noite anterior ninguém dormiu e eu estou cansada o suficiente para ceder aos apelos do marido para ficar em casa, posso furar porque um dos dois está com febre, posso furar porque tenho outro evento, mais cedo e mais perto e não, eu não encaro mais maratonas emendando uma festa na outra e ainda posso furar porque ontem já foi batizado do meu sobrinho e só me sobrou o domingo pra fazer o orçamento que preciso entregar na segunda e lavar a roupa atrasada, fazer supermercado pra semana…. Eu sei que você tem outras amigas com filhos que sempre vão, eu também tenho, vejo as fotos delas no Facebook, e eu queria muito ser como elas, para quem pelo menos parece ser tudo bem simples, mas eu não sou! Me desculpa!

Mas se você também estiver com saudades me liga, mas liga mesmo, vem tomar um café comigo, aqui perto, no meio da tarde, onde eu possa ir empurrando o carrinho, porque pra qualquer programa diferente disso eu dependo do sim de outras pessoas além da minha vontade.

 

3 comentários

  1. Valéria comentou:

    Olá eu me sinto assim também , depois do terceiro filho principalmente. Não tenho tempo e nem dinhero pra quase nada. Não tenho ânimo pra festa ou coisas parecidas. Não consigo sair da rotina assim , tem que ter planejamento tempo e estrutura . As pessoas não entedem que cada mãe reage de uma forma , quer te comparar as outra mães.

  2. Viviane comentou:

    Amei tão parecida comigo!

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