Maternidade ou maturidade?

Categorias: Prosa de mãe, Reflexões

 

Muitas vezes eu tenho a sensação que em algum momento, que não sei precisar quando, cruzei uma fronteira e de repente fiquei VELHA! Eu costumo creditar à maternidade a passagem definitiva para a vida adulta, mas será mesmo só culpa dela? Quem eu seria agora, aos 36 anos, se não fosse mãe?

Há alguns dias fui ao casamento de um colega de escola e encontrei velhos amigos, boa parte deles se divertia na pista de dança com a desenvoltura e intimidade de quem faz isso toda semana, eles dançavam fazendo caras e bocas, davam gritinhos no início das melhores (muitas das quais eu nem conhecia!), riam uns com os outros de suas piadinhas internas…. coincidência ou não nenhum deles tem filhos ainda. Eu ali, dançando modestamente “um pra lá, um pra cá” de mãos dadas com meu filho, constatei mais uma vez que estou velha, não sei mais fazer caras e bocas, não ando mais em turma e àquela altura já estava caindo de sono… Então lembrei! Fazia 3 anos que eu não ia a uma festa de adulto, não qualquer comemoração, mas festa de verdade, do tipo que vara a madrugada, as mulheres dançam até trocar os saltos pelos chinelos e as gravatas vão dos pescoços às testas. Isso mesmo, 3 anos!!!! E quer saber?! Eu adorei, me diverti, comi, bebi, revi amigos, dancei, mas não me vejo em outra dessas de novo tão cedo, de fato, eu não senti nenhuma falta….

No trabalho, costumo observar os grupos de garotas na faixa dos 30, e vejo nelas, nos seus gestos, suas roupas, suas risadas, sua vontade de marcar presença em todas as oportunidades como se fossem únicas, sua pressa em garantir um lugar ao sol,   vejo a Fernanda de 8 anos atrás, trabalhando na organização do Pan 2007. E mais uma vez eu penso “nossa, estou do lado de cá agora!”, o lado de quem já sabe o que vem depois dessa euforia, de quem já encontrou seu lugar, está cansada demais para estar sempre presente e quer mais é sair correndo pra casa para passar o fim de semana com a família.

Devo confessar que me sentir assim não é algo que me incomode (ainda), pelo contrário, é confortável…. é como estar exatamente onde devo estar…. o que só me faz ter mais certeza de que eu definitivamente virei gente grande! É perceber que eu gosto mais de poucos e bons amigos à volta de uma mesa, que eu não tenho mais disposição para o perrengue de determinados programas, que o conforto tem seu preço e vale cada centavo, que andar na rua depois das 10 da noite é estranho (eu levei meses para conhecer o porteiro da noite do meu prédio), que as manhãs de sábado tem uma luz que eu desconhecia e acordar cedo não é tão ruim quanto eu pensava, que não tenho mais pressa e nem perco a hora. É aprender que menos vale mais, que a prudência não faz mal a ninguém, que a opinião dos outros nunca importou menos, mas a minha fica a cada dia mais crítica. É ter consciência que toda a paciência que eu exerço com meu filho eu deixei de ter com os outros, então muitas vezes as pessoas me dão preguiça….. é ter certeza que o melhor lugar do mundo é minha casa!

Mas afinal, sossegar é um atributo da idade, da maternidade, do casamento ou de tudo junto? Sem filhos, a única certeza que tenho é que eu seria uma workaholic, e talvez mesmo sem o pique de antes, eu ainda me esforçasse pra curtir a vida à doidado…. acho que eu não seria casada, porque no meu caso, não consigo imaginar justificativa para não ter filhos estando casada com meu marido…. e consigo menos ainda me imaginar com outro marido…. quer saber?! Quem consegue imaginar a vida sem filhos depois de tê-los? Sim, a maternidade foi um divisor de águas, mudou meu ponto de vista, me tirou do centro do palco, e me fez cruzar esta tal fronteira imaginária meio que abruptamente…. mas no contexto geral os últimos 5 anos parecem ter passado em 5 horas, e o tal lado de lá, ficou há léguas de distância…. Pode ser também que daqui há uns anos eu relaxe e boa parte disso seja fruto do trabalho infindável que é ter filhos pequenos, mas o fato é que você pode casar e se separar, envelhecer e fazer plástica, engordar e emagrecer, amadurecer e fazer terapia, você pode ser jovem aos 60 anos, seus filhos podem crescer e deixar o ninho, mas você nunca mais voltará a ser a mesma depois de ter um filho!!!

 

Texto escrito por mim e originalmente publicado na coluna Maternidade Transformadora do site Sou Mãe em 26 de agosto de 2015.

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