O dia em que meu filho me ensinou a ser mãe – dia 267

Categorias: 1000 dias de mãe, Versos diários

Dia 267, um dia que eu não ia escrever…. comecei acordando tarde, quando deveria ter madrugado para dar conta de tudo que precisava, e já ia acabando o dia, exausta e decidida a deixar o relato para amanhã. Mas então Pedro veio para a minha cama, e dormiu abraçado ao meu pescoço, lágrimas me desceram os olhos e agora as letras me escorrem dos dedos…. preciso escrever!

 

Último dia para entregar a lista de material do mais velho na escola nova, escola de verdade daquelas que se estuda a vida inteira…. dia de faxineira, dia de descongelar a geladeira, dia da viagem da minha mãe para a Argentina. Tudo isso num dia, tudo isso para eu dar conta depois de um mês a cada dia mais enrolada, roupa acumulada, geladeira vazia, compras por fazer….ainda faltava tirar as fotos para escola, faltava o papel pra encapar o caderno, e toca de sair sozinha com os dois, já era quase hora do almoço, e aliás não tinha almoço!

Encapei e etiquetei tudo, enquanto Pedro tentava evitar que Laura engatinhasse por cima de tudo. Sim, fiz tudo sentada no chão do quarto deles já que a faxineira dava conta da sala naquela hora. No meio de tudo ainda publiquei alguma coisa correndo na página, um texto antigo no blog, uma foto no Instagram, tive também uma reunião ao telefone…. e enquanto isso ele perguntava “mamãe você já tá acabando, já pode brincar comigo?”, e Laura que recém acordara, chorava querendo o peito ….. mas ninguém teve atenção direito hoje, ninguém comeu direito hoje…. eu tinha até às 17h pra entregar tudo!

Depois de dar uma fruta em tempo recorde para Laurinha, saímos às quinze para as cinco, eu empurrando carrinho e arrastando Pedro, ele arrastando um pacote de biscoito aberto que achou no caminho. Ufa! Chegamos, tudo conferido e entregue!

Na medida em que dias assim se sucedem, que tarefas e cansaço se acumulam, minha paciência diminui…. Pedro que anda difícil vai ficando insuportável, e eu fico ainda mais impaciente, e está feito o círculo vicioso e não se sabe mais o que começou primeiro. Eu prometo pra mim, e pra ele, que vou ter mais paciência, dar mais atenção, eu converso, explico, peço…. ele melhora e em seguida desobedece de novo, grita, chora, implica, passa horas andando atrás de mim pela casa grunhindo sons sem sentido no meu ouvido…. tudo pra me enlouquecer?! Ou não, ou mais provavelmente, numa tentativa desesperada de ter a atenção que passei o dia dizendo que daria “daqui a pouquinho”!

Papai chega, saímos todos para passear, Pedro brinca no parquinho, dançamos todos juntos ao som da banda que toca ao vivo… e eu lembro como meu filho pode ser adorável, como ele é adorável. Crianças de 5 anos nem sempre são fofas como os bebês, eles falam sem parar, têm energia demais, repetem histórias que nem sempre nos interessam, fazem perguntas que temos preguiça de responder, eles gritam demais, eles dizem não quando queremos ouvir sim e demoram para fazer coisas que acreditamos que já podem fazer com facilidade. Crianças de cinco anos que acabaram de ganhar um irmão gritam ainda mais, dizem ainda mais “nãos”, deixam de fazer o que já estavam acostumados, como guardar brinquedos e escovar os dentes, reclamam por tudo, choramingam coisas que já sabiam falar e pedem atenção o tempo todo.

E sem perceber nós que pegamos os bebês o tempo todo no colo, beijamos, rimos, brincamos, alimentamos, amamentamos, damos banho, tudo com muito contato fisico…. nós, os mesmos pais carinhosos desse bebê, pedimos que o mais velho dê licença, que saia da frente, que espere, que ande rápido, que ajude, que faça silêncio, que coma, que fique quieto….. sem colo, sem abraço, sem quase contato físico…. afinal ele não precisa mais, ele já sabe sozinho…. será?!

À noite, discutíamos saudavelmente sobre questões de trabalho meu marido e eu. Saudável, mas acaloradamente. Laura engatinhava de um para outro e pulava de colo em colo. Pedro assistia TV sozinho no quarto…. Começo então fa preparar as coisas para colocá-la pra dormir, entro no quarto dele umas 3 vezes e todas as vezes ele me abraça as pernas sem dizer nada, só abraça. Num pedido silencioso por carinho, numa substituição comovente ao “mamãe brinca comigo”, seus olhos agora pareciam dizer apenas “fica comigo”. E por fim eu entendi, o levei pra minha cama e o esperei dormir abraçado comigo.

3 comentários

  1. Passo por isso muitas vezes, tenho dois meninos a diferença entre eles é de 2 anos e 8 meses. E esse texto me fez refletir muito. Obrigada!

  2. Beatriz comentou:

    Lindo post. Ainda estou grávida da segunda, mas esse tipo de coisa, de não conseguir dar atenção que a mais velha merece, de colocá-la de lado, ainda que inconscientemente, é o que mais me dá medo. Terão diferença de 2 anos e meio e ela é super grudada em mim.

    1. Kether comentou:

      Esse texto me fez chorar, so tenho um filho, mas esse texto se aplica tbm pq nossas vidas corridas e sem paciência, acabamos por punir nossos pequenos, mandando ficar quietos, saia dai, agora não, depois, não pula, não pode, não não e não, as vezes eles so querem como a autora disse que vc fique ali so um pouquinho, quer seu tempo sua demonstração de afeto. Amor tenho certeza que não nos falta, mas as vezes nao temos tempo em demonstrar 😢

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