Sobre o desmame inesperado de Laura – dia 377

Categorias: 1000 dias de mãe, Versos diários

Trezentos e setenta e sete dias. E hoje o relato não é sobre hoje, mas sobre algo que veio acontecendo inesperada e gradativamente ao longo do último mês, o desmame de Laura!

desmameAté ser operada de emergência, quando Laura tinha de 10 para 11 meses, desmame não tinha sequer passado pela minha cabeça. Não que eu fosse deixar a cargo dela, muito provavelmente, ou pelo menos eu pensava assim, em algum momento lá entre os 18 e 24 meses eu sentiria que chegara o momento, e iniciaria um desmame gentil e natural. Então aconteceu a emergência, já na primeira noite de hospital, pela primeira vez eu pensei no assunto. Pensei que Laura em breve faria um ano e que talvez fosse a hora de introduzir o leite de vaca como alternativa, que talvez fosse a hora de me permitir alguma liberdade. Exausta em uma cama de hospital, pensei na possibilidade de ter noites melhores, e que ela não passaria novamente um sufoco como aquele, de repente 3 dias sem uma gota de leite! E enquanto sentia o peito encher, bateu medo do desmame, eu ainda não estava preparada, buscando alternativas ou não eu continuaria a amamentar. Mas sim, eu comecei a considerar iniciar um processo que levaria, lentamente ao desmame em algum momento.


Após minha volta pra casa e o reencontro, tivemos alguns dias de muito peito em livre demanda, era muita saudade, e também a necessidade de recuperar três dias sem leite, já que ela não aceitou o artificial. Tudo parecia que ia voltar ao normal. Mas em menos de uma semana o cenário era o caos, noites cada vez piores, mamadas cada vez mais curtas e ineficazes, Laura a cada dia mais irritada. Limitada pelo pós operatório, eu não podia pega-lá no colo, pai e avó sobrecarregados e exaustos, perda de peso… e de repente eu não sentia mais o peito encher como antes….. aos 11 meses iniciei o complemento! Em dois ou três dias ela começou finalmente a aceitar a mamadeira, mesmo eu tendo tentado diversas outros modelos de copos. Àquela altura me importava apenas que ela aceitasse alguma alternativa ao seio.


É importante dizer que sempre há uma escolha, o desmame de Laura não foi natural, mesmo que iniciado por razões alheias a minha vontade, minhas escolhas terminaram por levar a ele, sou consciente disso. Eu sentia o desinteresse aumentando, sentia a produção caindo, sentia a cada vez que ela rejeitava o peito depois de duas sugadas, ela estava largando, eu sabia…. e doía! De um lado a imensa vontade de amamentar por mais tempo, a noção dos benefícios que ainda haviam, a falta que sentiria, a saudade…. de outro o cansaço, a chance de liberdade, a preocupação com o peso, o sono…. Conversei com uma amiga especialista no assunto, ela me deu umas dicas, e se colocou a meu dispor para me atender e me ajudar a manter a amamentação se fosse meu desejo. Aumentei a ingestão de líquidos, banhos quentes nas mamas, me acalmei e consegui recuperar um pouco, decidi que faria todo o esforço para completar um ano, mas que além disso seria o que tivesse que ser. Ofereceria até que ela não quisesse mais, e foi o que aconteceu. As mamadas foram ficando cada vez menos frequentes, a mamadeira foi substituindo uma a uma, até que Laura mamou pela ultima vez na véspera do aniversário. Não sei se foi a cirurgia, a anestesia, a estafa ou tudo junto, mas ela mamou até secar, aceitou o leite artificial porque de fato estava com fome. Após o desmame nunca precisei aliviar tirando leite, não tive dor, simplesmente acabou.

Eu escolhi amamentar meus filhos, fiz de tudo com Pedro, com Laura embora não tenha sido necessário esforço, precisei também fazer escolhas, abrir mão de algumas coisas para manter o aleitamento exclusivo. Com ele havia sido tão sofrido começar que decidi que não sofreria no desmame, e simplesmente aceitei quando ele aos 6 meses desistiu, e desisti também. Com ela, após um ano de amamentação bem sucedida, após me sentir realizada, não vi sentido em recomeçar, a essa altura, um esforço extra para reverter a produção e manter. Foi uma escolha racional, e na maior parte do tempo estou bem com ela. Mas foi difícil escrever o texto, reconheço, e sim, tenho saudade em diversos momentos.


A amamentação é uma jornada pessoal e singular de cada mãe com cada bebê, e a cada uma deve ser facultado e respeitado o direito de fazer suas escolhas, estabelecer seus limites e momentos. Eu tive o privilégio de poder fazer as minhas com apoio e conhecimento, mas nem sempre é assim e por isso escrever sobre isso é tão delicado, muitas vezes envolve pressão, desamparo, julgamento e culpa, por todos os lados. Quando deveria envolver apenas informação, acolhimento e respeito.

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