Carta para o meu filho mais velho

Categorias: Prosa de mãe, Reflexões

Durante anos Pedro acordou chorando. Não sei bem ao certo quando isso mudou, mas já fazia um tempo que isso não acontecia. Mas esses dias, aconteceu de novo, e se antes eu entrava correndo pelo quarto para atendê-lo….. Hoje entrei no quarto correndo pedindo “pára de chorar meu filho, vai acordar a sua irmã!”. Claro que ele continuou, claro que ela acordou e claro que eu caí em mim…. Laura demanda tanto, me desafia tanto, e eu sempre esperando que ele aos cinco anos seja ainda mais generoso do que sempre foi comigo, que entenda, ajude, colabore…. Me esquecendo que até outro dia eu teria corrido para socorrê-lo e não pedido socorro! Não foi só para mim que as coisas mudaram após a chegada de Laura…. e por isso comecei a pensar um tanto de coisas que gostaria de dizer ao Pedro nesse momento, coisas que talvez ele ainda não possa entender, pelo menos não ditas desta forma, mas que um dia ele poderá ler, nesta carta para o meu filho mais velho.

Leia também sobre o dia em que meu filho me ensinou a ser mãe!
carta para o meu filho mais velho
Ao meu filho mais velho,
Sabe meu filho, a maternidade já foi mais fácil para mim. Logo quando você chegou, tudo mudou, mas hoje eu sei que o maior trabalho foi comigo mesma, foi o de me descobrir mãe, foi o de entender as transformações que a sua vinda me causou. E você foi generoso comigo e tranquilo o suficiente para me permitir ter tempo e espaço para mergulhar nessa jornada de auto conhecimento. Você me apresentou a maternidade, intensa como ela é, mas com leveza e serenidade.
Então sua irmã chegou, trazendo novos desafios, veio me tirar da zona de conforto, veio requisitar toda a minha atenção quando ela já não está mais disponível, veio me ensinar que a maternidade vai além de mim mesma, que cabem aqui não só as minhas regras e as minhas vontades, veio me mostrar que existem muitas outras versões daquilo que eu tirava de letra. E que cada mãe se ajusta como pode à sua versão. Que o caminho que eu percorri até aqui foi só o começo, que muito eu ainda tenho a aprender.
Tudo era mais simples quando éramos só você e eu, quando você chorava pela manhã, era difícil abrir os olhos, mas eu tinha dormido quase o mesmo tempo que você. Quando você queria brincar no fim do dia, eu mesmo cansada, estava morrendo de saudades. Quando você chamava, não havia nada que precisasse ser feito antes de te atender, não havia ninguém que desviasse minha atenção. Já a sua irmã chegou à uma família em que você já estava, ela já nasceu dividindo o colo, a atenção…. ela já aprende hoje a esperar no berço enquanto te tiro do banho, ela já vê na televisão desenhos e programas que não interessam a ela, ela já precisa vir embora da praça porque você tem escola, entre tantas outras lições sobre dividir, esperar, respeitar e até se defender que são vividas por ela no dia a dia. Ela nunca foi única, ela não conhece outra realidade.
Já nós dois, você e eu, estamos aprendendo só agora, cinco anos depois! É bem mais difícil eu sei, é para mim também. Difícil me dividir, difícil ser inteira com o tempo pela metade e o dobro do cansaço. E eu sei, que tenho sido exigente e muitas vezes impaciente com você, às vezes além da conta, me desculpe! Eu também estou aprendendo. Mas sabe meu filho, a vida é mesmo exigente com a gente em alguns momentos, esse é só o primeiro desses momentos que nós dois enfrentaremos juntos. E eu espero que apesar dos meus erros e também um pouco por causa deles, nós dois fiquemos mais fortes e mais preparados para as próximas vezes que a vida vier nos exigir. E que assim como você faz agora, você nunca deixe de gritar por ajuda, de lutar por atenção…. eu estarei sempre lá pra te acolher e te orientar, mesmo que você precise esperar, mesmo que você precise ter um pouco da paciência que às vezes me falta.
O mais importante disso tudo meu filho, é que o meu amor não mudou e nem mudará nunca, ele só cresce, cresce, cresce….. exatamente como você, meu menino!

 

1 comentário

  1. Engraçado isso, né…lembro de estar grávida do segundo e ficar observando meu filho mais velho, o Lipe….e eu pensava que ia ser difícil demais para o Pedro me conquistar como o primeiro, que para ele conquistar o espaço dele seria um desafio…pensamento de mãe de primeira viagem mesmo….aí ele chegou com suas mil necessidades e coisinhas fofas…passado alguns meses estava eu me torturando achando que estava dando atenção demais para o menor e nada para o Lipe…essa balança de atenção é meio “neura” nossa eu acho, damos o que eles pedem e por instinto animal, sabemos fazer isso com dois, três, dez filhos! Mas para o amor não existe balança, é muito amor para todos os lados…vira e mexe tem um ciúmes, mas que não falta amor, não falta mesmo!

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